Unila concede Doutorado por Notório Saber a mestres tradicionais
A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) concedeu o título de Doutorado por Notório Saber a 12 mestras e mestres de saberes populares e tradicionais da América Latina e Caribe. Desse total, cinco homenageados pertencem a comunidades de terreiro localizadas em Foz do Iguaçu.
Cerimônia internacional no campus A entrega das titulações ocorreu na terça-feira, 3, no Campus Jardim Universitário (JU), reunindo representantes do Brasil, Bolívia, Equador, Venezuela, Colômbia e Guatemala. O evento contou com a presença da reitora Diana Araujo Pereira. Essas lideranças já possuíam o reconhecimento de sábios em suas comunidades por guardarem conhecimentos tradicionais fundamentais.
Atuação acadêmica e quebra de paradigma Com o diploma equivalente ao doutorado acadêmico, os novos doutores estão aptos a lecionar e colaborar em iniciativas de pesquisa, extensão e inovação na instituição. O coordenador do Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA), Gerson Galo Ledezma Meneses, ressalta a relevância da honraria e critica o modelo histórico das instituições de ensino. Ele afirma que durante séculos “a academia tradicional agiu como se os saberes ancestrais fossem uma estátua oculta sob um manto negro em uma praça vazia, à espera de que um intelectual diplomado chegasse para descobri-los em benefício próprio — o que hoje se chama de extrativismo”.
Meneses acrescenta que, no passado, as instituições tratavam os povos tradicionais apenas como objetos de pesquisa. “Mas, hoje, a Unila rompe com essa ilusão colonial”, salienta. Essa iniciativa integra o projeto nacional Encontro de Saberes, que busca inserir mestres populares nas universidades públicas para promover o diálogo entre o conhecimento euro-ocidental e as comunidades tradicionais.
Processo de seleção e novas funções A aprovação dos candidatos passou por uma rigorosa banca de avaliação composta por professores doutores. Agora, os titulados podem atuar como professores substitutos ou visitantes, integrar bancas e orientar trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado. O Grupo de Pesquisa Rede de Ancestralidades, Saberes Interepistêmicos, Transdisciplinaridade e Territórios de Re-Existência – Rastrros, registrado no CNPQ, auxiliou na elaboração do material de memória dos candidatos.
Este marco representa a primeira titulação de Notório Saber da história da Unila e a pioneira no país a abranger mestres de toda a América Latina e Caribe. O embasamento legal para a concessão veio da Resolução n.º 15/2025 do Conselho Universitário (Consun), que regulamenta o reconhecimento para saberes indígenas, afro-brasileiras, quilombolas, de terreiro, ribeirinhos, extrativistas e populares nas áreas de artes, cosmologias, saúde popular e saberes ambientais.
Publicação e registro histórico Todas as trajetórias e conhecimentos dos titulados foram catalogados no primeiro volume da coleção Título de Notório Saber, lançado pela Editora CRV. A organização do livro ficou a cargo de Gerson Galo Ledezma Meneses, Jacqueline Méndez Gamboa, Solange Bonomo Assumpção e Senilde Alcântara Guanaes, trazendo os perfis da turma de 2026 e os nomes das bancas examinadoras em versões física e digital.
Lista completa dos doutores titulados: – Amanda Trinidad Villalba Guccione Vieira (Ifarunké Iya), Brasil, comunidades de terreiro — Cultura de Terreiro: Espiritualidade Integrativa; – Ednamar Costa de Almeida (Mãe Edna de Baru), Brasil, comunidades de terreiro — Cultura de Matriz Africana: Terreiro; – Elias Marques dos Santos Filho, Brasil, comunidades de terreiro — Cultura do Terreiro: Espiritualidade Integrativa; – Francisco Ramiro Batzín Chojoj, Guatemala, povo Maya Kaqchiquel — Cosmovisão e Governança Indígena; – Luis Eduardo Maldonado Ruíz, Equador, povo Kichwa — Cultura Indígena: Interculturalidade e Movimentos Sociais; – Maria Ângela da Silva Santos, Brasil, comunidades de terreiro — Cultura de Terreiro: Saberes Alimentares Tradicionais; – María Clemencia Herrera Nemerayema, Colômbia, povo Uitoto — Cultura Indígena: Educação e Direitos; – María Eugenia Choque Quispe, Bolívia, povo Aymara — Cultura Aymara: Memória Andina; – María Laura Santillán Santillán, Equador, povo Kichwa — Cultura Quíchua: Educação Popular; – Milangela Angulo Yavina, Venezuela, povo Warekena — Cultura Warekena: Artes; – Roberta Áureo Martins de Souza, Brasil, comunidades de terreiro — Cultura de Terreiro: Artes; – Rubén Hilare Quispe, Bolívia, povo Aymara — Cultura e Língua Aymara: Educação e Letras.
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