Na década de 1980, a construção da usina hidrelétrica de Itaipu deu início a uma das maiores operações de salvamento de fauna silvestre da história latino-americana, batizada de Mymba Kuéra. Sob a liderança do engenheiro agrônomo Darío Pérez Chena, uma equipe enfrentou uma corrida contra o tempo para retirar espécimes da área que seria inundada pelo rio Paraná, na fronteira entre Brasil e Paraguai.
Um tesouro ecológico em risco Com mais de 7 quilômetros de extensão, a represa exigiu o desvio temporário do rio para as obras em solo seco. Em 1982, com a conclusão desta etapa, as comportas foram fechadas para encher o reservatório de 1.350 quilômetros quadrados, localizado no coração da Floresta Atlântica do Alto Paraná. O bioma abriga cerca de 20 mil espécies vegetais e milhares de animais, tornando urgente uma intervenção para proteger a rica biodiversidade local contra o avanço das águas.
Logística e preparação da equipe Antes da inundação, especialistas realizaram um inventário detalhado da fauna por meio de avistamentos e rastros. A execução ficou a cargo de 189 profissionais rigorosamente selecionados, apoiados por outras 150 pessoas entre médicos, bombeiros e pilotos. Munidos de lanchas e rádios com comunicação em guarani, os socorristas atuavam em uma área de rica biodiversidade, preparados para lidar com espécies peçonhentas e situações de risco extremo.
Desafios nas águas e números recordes A operação iniciou em 13 de outubro de 1982 e seguiu até janeiro de 1983, alcançando o ápice de 600 salvamentos diários. A prioridade eram os animais que não sabiam nadar ou que corriam o risco de exaustão nas águas, incluindo macacos, tatus e diversas espécies de aves. No total, o lado paraguaio salvou 27.150 espécimes, enquanto o Brasil resgatou cerca de 11 mil, somando quase 39 mil animais salvos.
Destino dos animais resgatados Grande parte dos espécimes foi devolvida à natureza em reservas protegidas com mais de 100 mil hectares na Mata Atlântica. Cobras venenosas foram enviadas diariamente ao Instituto Butantan para pesquisas e fabricação de soros, enquanto alguns tatus foram levados a Tóquio para estudos científicos devido à sua resistência a determinadas enfermidades.
Legado histórico de preservação Apesar dos desafios e da inexperiência inicial, a missão ocorreu sem acidentes graves e estabeleceu parâmetros fundamentais para a conservação ambiental moderna na América do Sur. Hoje, aos 87 anos, Pérez Chena relembra o feito com orgulho, destacando que a iniciativa serviu de base para projetos atuais de proteção à biodiversidade, provando que o planejamento ecológico pode caminhar junto com grandes obras de engenharia.
Por Redação Acontece Créditos das imagens: Divulgação / Itaipu Binacional
