Plano de Trump com Itaipu pode cortar energia para o Brasil
A estratégia do governo de Donald Trump para empregar a eletricidade da usina de Itaipu em centros de inteligência artificial tem potencial para diminuir o volume energético enviado ao mercado brasileiro. O alerta surge de especialistas do setor após a formalização de uma parceria comercial entre companhias dos Estados Unidos e do Paraguai.
O avanço do consumo paraguaio Conforme apontam os pesquisadores, o território paraguaio tem elevado progressivamente o aproveitamento da eletricidade que lhe cabe na hidrelétrica binacional. Com a chegada de novos projetos industriais de grande porte, a expectativa é que o país vizinho retenha uma parcela cada vez mais expressiva, reduzindo o excedente repassado historicamente aos brasileiros.
O Tratado de Itaipu assegura que Brasil e Paraguai detenham, cada um, 50% da produção energética total. Historicamente, os paraguaios utilizavam apenas uma fração reduzida, repassando o restante ao Brasil. Hoje, o consumo interno paraguaio alcança cerca de 74% de sua cota, enquanto os 26% restantes são direcionados ao sistema brasileiro.
Parceria tecnológica internacional A aliança comercial anunciada une a americana Crusoe, especializada em infraestrutura para IA, e a construtora paraguaia Araico. A primeira etapa do complexo tecnológico tem previsão de funcionamento para meados de 2027, utilizando os recursos de Itaipu para alimentar estruturas de processamento de dados voltadas a clientes latino-americanos e norte-americanos.
As tratativas ocorreram sem a participação do governo brasileiro. A administração de Itaipu esclareceu que não esteve presente nos encontros e que o direcionamento da cota energética de cada nação é uma competência soberana definida pelas diretrizes do tratado bilateral.
Impactos nas negociações binacionais Para o doutor em Energia Victorio Oxilia, a retração no volume excedente já se encontra em curso e tende a ganhar ritmo com a chegada de novos demandantes industriais.
“O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante”, afirma Oxilia.
O especialista pontua que a alta na demanda interna do Paraguai ganhou força entre 2021 e 2022, impulsionada principalmente por operações de mineração de criptomoedas.
O professor de Relações Internacionais Tomaz Espósito avalia que os novos complexos tecnológicos devem enxugar a oferta para o Brasil e impor complexidade às conversas diplomáticas.
“Com um novo consumidor, as negociações do Anexo C se tornarão mais complexas, pois o Paraguai poderá ter outros consumidores, como essas empresas. No curto prazo, isso significa uma possibilidade de redução da oferta de energia ao mercado brasileiro”, explica.
O Anexo C do Tratado de Itaipu regulamenta os aspectos financeiros e comerciais da energia gerada, estipulando os cálculos tarifários e as compensações devidas pela eletricidade não utilizada e cedida entre as partes.
Situação do sistema elétrico nacional Apesar do cenário de retração, os analistas descartam perigo iminente de colapso no abastecimento nacional. Oxilia destaca que a matriz elétrica brasileira conta com alta diversificação de fontes para mitigar eventuais perdas.
“O Brasil vai sentir essa energia disponível, porém tem um sistema tão grande, com tantas opções hoje em dia, que esse impacto vai ser mínimo”, afirma.
Em contrapartida, Espósito ressalta a relevância estratégica da hidrelétrica para a segurança do Centro-Sul.
“Ainda que o Brasil tenha um superávit de energia, com grande potencial solar, uma reserva importante de energia do Centro-Sul vai diminuir ao longo do tempo.”
Até o momento, não há projeções oficiais sobre o montante exato que deixará de ser enviado ao Brasil nem sobre possíveis reflexos nas tarifas pagas pelos consumidores finais.
Investimentos e segurança na região A iniciativa faz parte de um pacote de coordenação do Departamento de Estado americano para intensificar investimentos no Paraguai, incluindo aportes na exploração de urânio e acordos voltados à segurança de fronteiras e combate ao narcotráfico.
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